Cada vez mais ausentes no seio familiar e no quotidiano urbano, as línguas nacionais estão a perder espaço entre as novas gerações. Cidadãos de diferentes idades e regiões afirmam que o uso do português, a pressão social e a falta de transmissão em casa contribuem para o enfraquecimento dessas línguas, consideradas por muitos como parte essencial da identidade angolana.
Por : Redacção
A ignorância tem-se manifestado como o tom dominante em diversos espaços culturais, académicos, religiosos e outros, onde a língua portuguesa continua a ser privilegiada em detrimento das línguas nacionais. Esse comportamento tem gerado debates acesos e constrangimentos no seio de várias instituições públicas, bem como nas diferentes comunidades do país.
“Os meus filhos entendem, mas já não falam a minha língua.” A afirmação, feita por uma mãe residente em Luanda, resume uma realidade partilhada por vários cidadãos ouvidos pela reportagem. Em muitas famílias, a comunicação diária passou a ser feita quase exclusivamente em português, deixando as línguas nacionais restritas aos mais velhos.
Entre jovens, o afastamento é ainda mais evidente. Alguns dizem compreender a língua materna, mas evitam usá-la em público. “Na escola e com amigos sempre falámos português. Quando alguém fala língua nacional, há quem goze”, contou um estudante universitário.
A associação entre línguas nacionais e falta de escolaridade surge com frequência nos depoimentos. Para alguns entrevistados, falar a língua materna pode significar exclusão social. “Se falares na rua, pensam que não tens estudos”, afirmou uma jovem vendedora informal.
Apesar disso, há quem defenda a preservação como forma de manter a identidade cultural. “É a língua dos nossos antepassados. Se deixarmos de falar, estamos a apagar a nossa história”, disse um taxista, que admite, no entanto, comunicar em português com os filhos para facilitar o percurso escolar. Quem partilha da mesma ideia é o Marcos José Luciano Alberto da etnia ovimbumdo. As línguas nacionais ainda fazem parte do quotidiano dos angolanos apenas de ser pouco notório na sociedade moderna, “quando estamos em um ambiente desportivo com a família, falámos a língua nacional “
Os mais velhos demonstram maior preocupação com o futuro. Muitos recordam um tempo em que as crianças aprendiam primeiro a língua nacional antes do português. “Hoje a criança já cresce a falar só português. A nossa língua vai morrer connosco”, lamentou o idoso Seabra José Marques Bombo.
A percepção geral é de que o risco de desaparecimento das línguas nacionais não resulta de proibição formal, mas da mudança de hábitos dentro das próprias famílias. Para vários entrevistados, a sobrevivência dessas línguas depende sobretudo da vontade de as falar e ensinar às novas gerações.
“A língua só vive se for usada”, concluiu uma mãe de três filhos. “Se nós mesmos não passarmos, ninguém vai passar por nós.”

