Por ocasião do Dia Internacional da Rapariga, entrevistados alertam para os desafios enfrentados pelas adolescentes e jovens em Luanda, defendendo maior investimento na educação, formação profissional e criação de oportunidades de emprego.
Por : Redacção
O desemprego e a vulnerabilidade social continuam a ser apontados como factores que contribuem para o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, a adesão aos jogos de azar e o recurso à prostituição ocasional entre adolescentes e jovens. A constatação foi apresentada por um grupo de entrevistados que falou ao nosso jornal por ocasião do Dia Internacional da Rapariga, assinalado no último domingo, dia 11.
Para os entrevistados, a falta de oportunidades, as dificuldades económicas e a pressão social estão entre os principais factores que levam muitas jovens a adoptar comportamentos de risco, numa tentativa de enfrentar as dificuldades do quotidiano.
Andreia Pedro considera que ser rapariga actualmente em Luanda significa alimentar o sonho de um futuro melhor, enquanto se luta diariamente para sobreviver às adversidades do presente.
Segundo a cidadã, o consumo de bebidas alcoólicas começa, muitas vezes, nas festas de bairro e nos convívios entre colegas, tendo como uma das principais motivações a tentativa de esquecer os problemas pessoais e económicos.
“Às vezes, bebemos para esquecer que estamos há tanto tempo à procura de emprego. Outras vezes, bebemos para não ficarmos de fora do grupo, mas também por causa da pressão social”, afirmou.
A entrevistada acrescentou que a falta de emprego leva algumas jovens a procurar alternativas nos jogos de azar online, actividade que, segundo alerta, pode expô-las a situações de burla e a perdas financeiras, agravando ainda mais a sua condição económica.
Por outro lado, a necessidade de garantir o sustento pessoal e familiar leva algumas mulheres a recorrer a práticas que, em circunstâncias normais, não escolheriam, incluindo a prostituição ocasional.
Uma jovem de 23 anos, que preferiu não ser identificada, relatou que as dificuldades financeiras podem tornar algumas mulheres vulneráveis a propostas de natureza sexual em troca de dinheiro.
“Ninguém sonha com isso, mas, quando falta comida em casa e não tens dinheiro para pagar a universidade, aparecem homens que oferecem 15 a 20 mil kwanzas”, contou.
A jovem defendeu que a falta de apoio social, de oportunidades de formação e de perspectivas de inserção profissional contribui para o agravamento da vulnerabilidade de muitas raparigas.
“Quando o Estado e a família não oferecem formação, lazer saudável e perspectivas de primeiro emprego, o álcool, a droga e a exploração sexual acabam por preencher esse vazio”, considerou.
Por sua vez, Rosiclénia Fausto, nome fictício utilizado para preservar a identidade da entrevistada, afirma compreender a situação de algumas mulheres que, segundo a sua perspectiva, acabam por enveredar por caminhos que considera prejudiciais devido à falta de uma educação de base e às dificuldades enfrentadas ao longo da vida.
A entrevistada recordou que também cresceu num ambiente marcado por limitações económicas, mas considera que a educação recebida no seio familiar e os valores religiosos foram determinantes para as suas escolhas.
“Felizmente, cresci no seio de uma família rigorosa, apesar das muitas dificuldades económicas. Passei fome várias vezes, andei descalça por falta de chinelas e estudei com poucas roupas. Mas, graças a Deus, ouvi sempre os meus pais, e a palavra de Deus também me ajudou bastante. Hoje, sou grata por tudo e pretendo ajudar as mulheres que passam por essas dificuldades”, afirmou.
Rosiclénia considera que o acompanhamento familiar, a educação e a transmissão de valores podem ajudar as jovens a enfrentar as adversidades, embora reconheça a importância de melhores condições sociais e económicas para prevenir situações de vulnerabilidade.
Investir nas raparigas é investir no futuro
Os relatos evidenciam os desafios que muitas adolescentes e jovens enfrentam numa realidade marcada pelo desemprego, pela pobreza e pela falta de oportunidades de formação e desenvolvimento pessoal.
Neste contexto, o Dia Internacional da Rapariga, celebrado anualmente a 11 de Outubro, representa não apenas uma data comemorativa, mas também um momento de reflexão sobre a necessidade de proteger os direitos das raparigas e garantir condições para o seu crescimento, autonomia e participação activa na sociedade.
O investimento na educação, na formação profissional, no acesso ao primeiro emprego, na saúde e em espaços de lazer saudáveis é apontado como fundamental para reduzir a vulnerabilidade social e prevenir comportamentos de risco.
Investir numa rapariga é quebrar ciclos de pobreza e vulnerabilidade, criar oportunidades e contribuir para uma sociedade mais justa, segura e inclusiva.

