Os lavadores de carros continuam a ser vítimas de discriminação social, sendo frequentemente associados à criminalidade, ao consumo de drogas e ao abandono escolar. A preocupação foi manifestada por um grupo de jovens que exerce esta actividade na zona do Kifangondo, município do Sequele, província do Icolo e Bengo, em declarações à reportagem do Jornal Liberdade.
Por : Redacção
Os jovens dizem-se preocupados com a forma como são tratados no dia-a-dia e apelam à sociedade para que deixe de os julgar pelo trabalho que exercem, defendendo o respeito pela sua dignidade e o reconhecimento do seu contributo para o nosso quotidiano.
Alberto António Manuel, que se dedica à lavagem de viaturas desde os 15 anos de idade, afirma já ter sido vítima de preconceito, tendo sido tratado como ladrão e consumidor de drogas. Segundo o jovem, estas atitudes contribuem para a desvalorização social dos profissionais do sector.
“Muitas vezes somos considerados ladrões e consumidores de drogas, como se não tivéssemos espaço no enquadramento social. Estamos aqui porque não surgiu outra oportunidade de ocupação. Aproveito para pedir a intervenção dos governantes, no sentido de criarem políticas favoráveis à nossa prática laboral”, apelou.
O jovem explicou que o rendimento obtido com a lavagem de viaturas lhe permite contribuir para o sustento da família. Na ocasião, aproveitou para apelar à mudança de comportamento da sociedade em relação aos profissionais da área.
“Peço bom senso ao público. O lavador de carros é uma pessoa normal e de sã consciência”, afirmou Alberto António Manuel.
Outro lavador de carros, que preferiu não revelar a sua identidade, também criticou o tratamento de que é alvo, afirmando que os profissionais são frequentemente confundidos com delinquentes.
O jovem, que exerce a profissão há mais de cinco anos, garantiu que desempenha o trabalho com dedicação e responsabilidade, procurando cumprir os compromissos assumidos com os clientes.
“Nós, lavadores de carros, trabalhamos com viaturas de diversas pessoas, incluindo algumas bem posicionadas na sociedade, e procuramos sempre honrar os nossos compromissos”, declarou.
Por sua vez, Silvestre António Nepa, responsável pelo espaço onde os jovens realizam a lavagem das viaturas, lamentou os preconceitos existentes em relação à actividade. Na sua perspectiva, muitos jovens recorrem a este trabalho devido à falta de oportunidades no mercado de emprego.
O responsável considera preocupante a forma como as pessoas encaram os lavadores de carros, associando-os, de forma generalizada, à delinquência e ao consumo de drogas.
“Lavador de carros não tem dinheiro, não estuda, não faz nada. É um pensamento que a colectividadeincutiu na mente das pessoas, apelidando-os de delinquentes e consumidores de drogas. Perante ao meio social, eles não têm um bom enquadramento e são vistos como pessoas desprovidas de princípios éticos e de uma conduta socialmente aceite”, esclareceu Silvestre António Nepa.
O interlocutor apelou, por isso, à mudança de mentalidade, defendendo que os jovens que se dedicam à lavagem de viaturas devem ser reconhecidos como cidadãos com direitos, capacidades e aspirações, tal como os demais membros da comunidade.
Como exemplo, referiu conhecer jovens que, apesar de exercerem este serviço, investiram na sua formação e conseguiram melhores oportunidades profissionais.
“Conheço alguns jovens lavadores de carros que conseguiram obter a carta de condução e, posteriormente, tiveram acesso a um emprego”, acrescentou.
Em Angola, existe a Associação dos Lavadores de Carros de Angola (ALCA), fundada em Março de 2021, no município de Cacuaco, em Luanda tendo como objectivo promover a organização da classe, valorizar a actividade e salvaguardar os direitos dos jovens que trabalham na lavagem formal e informal de viaturas.
A associação desenvolve igualmente acções de sensibilização junto dos jovens, com vista à prevenção da criminalidade e ao incentivo ao trabalho digno, útil e legal.
Perante os testemunhos recolhidos, os lavadores de carros defendem que a sociedade deve abandonar os estereótipos e reconhecer o valor do trabalho honesto, independentemente da ocupação exercida. Para os jovens, o respeito e a inclusão social são fundamentais para combater a marginalização e garantir melhores oportunidades para todos.


