Não é a primeira vez que surgem relatos sobre a degradação de estabelecimentos de ensino no país, frequentemente marcada pela insuficiência de carteiras e pela falta de manutenção das infraestruturas. Desta vez, o apelo por melhores condições parte dos alunos da referida escola, que aguardam por dias melhores.
Por: Benhão Sapo
A instituição, identificada como Escola n.º 1527, apresenta carteiras em estado parcial e avançado de degradação, ausência de portas nas salas de aula, janelas danificadas e casas de banho sem condições adequadas de uso, uma situação que o Movimento de Estudantes de Angola (MEA) tem manifestado preocupação com casos recorrentes do género e afirma ter apresentado reclamações às entidades competentes, apelando à rápida intervenção para reverter o quadro actual.
As alunas Daniela e Teresa, que frequentam a 9.ª classe, afirmam que o ambiente escolar é bastante precário. Segundo relatam, apesar de o Ministério da Educação ter realizado obras no campo da escola e colocado o teto, as salas de aula continuam em más condições. Algumas apresentam tectos destruídos e, actualmente, há salas que não estão a funcionar por falta de condições mínimas. Acrescentam ainda que, quando um aluno chega atrasado, muitas vezes é obrigado a sentar-se numa carteira sem mesa de apoio.
Além das carteiras degradadas, as estudantes destacam a situação preocupante dos balneários. De acordo com elas, as casas de banho não reúnem condições de higiene e segurança, levando muitas alunas a evitarem utilizá-las por receio de contrair doenças infecciosas, incluindo infecções urinárias.
Teresa Mukinda relata que as casas de banho não possuem portas nem tecto e que falta água nos lavatórios, o que agrava ainda mais a situação. “Estamos vulneráveis, podemos ser vistas por qualquer pessoa. Quando tenho necessidade, se não vou para casa, saio da escola ou simplesmente aguento”, afirma.
As alunas denunciaram ainda que estão proibidas de usar tranças com postiços. Segundo os seus relatos, quem desrespeita essa regra é alegadamente punida, sendo obrigada, como forma de castigo, a transportar pregos, tinta ou a limpar o interior das casas de banho da escola. De acordo com o testemunho das estudantes, várias já terão sido submetidas a essas punições. No entanto, ninguém sabe qual é o paradeiro da tinta mencionada, enquanto a escola mantém a mesma pintura.
A directora da instituição de ensino, Vera Cristina Monteiro Sapalo, esclareceu ao nosso jornal que a medida adoptada pela escola resulta de um regulamento interno. Segundo explicou, a decisão visa orientar as alunas do primeiro ciclo, maioritariamente adolescentes, a evitarem o uso de cabelos importados longos, de modo a que não sejam confundidas com mulheres adultas.
Questionada sobre a degradação das infra-estruturas da escola, a responsável preferiu não avançar detalhes, prometendo pronunciar-se nos próximos dias.
A situação foi também analisada pelo professor de História e político David Sambongo, que considera que a medida pode ser encarada de forma positiva, sobretudo na perspectiva da preservação da identidade cultural. Para o académico, cabe à escola adoptar um conjunto de valores que contribuam para um melhor ambiente e para a adequada apresentação dos alunos.
David Sambongo defende que a questão dos penteados e cortes extravagantes deve ser observada sob duas perspectivas. Por um lado, a escola tem a responsabilidade de promover valores; por outro, deve-se ter em conta a influência histórica e cultural. O professor recorda que a presença europeia no país contribuiu para a disseminação de determinados padrões estéticos, que podem traduzir-se numa espécie de “colonialismo mental”, levando muitas jovens a não valorizarem a sua beleza natural.
Para o historiador, incentivar a naturalidade é uma forma de promover o amor-próprio e reforçar a identidade cultural. Contudo, ressalta que o controlo sobre o corpo dos estudantes não deve servir para limitar as suas liberdades fundamentais.
Relativamente aos rapazes, David Sambongo afirma que os cortes de cabelo são, em muitos casos, interpretados de acordo com a visão das direcções escolares e dos professores. Recorda ainda que, no período colonial, os africanos eram obrigados a cortar ou rapar o cabelo, por este ser considerado “feio”, tratando-se de uma imposição discriminatória.
O académico conclui que é necessário ultrapassar esses estereótipos. Defende que os alunos devem poder escolher os seus cortes de cabelo no quadro das suas liberdades fundamentais, desde que não comprometam a identidade cultural nem o ambiente escolar.

