Os casos de negligência médica em diversas unidades sanitárias do país continuam a preocupar a sociedade angolana. A situação, que não é nova para o Ministério da Saúde nem para os gestores hospitalares, tem registado episódios recentes que reacendem o debate sobre a qualidade da assistência prestada nos hospitais públicos.
Por: João Afonso
Como forma de travar estas práticas, o Ministério da Saúde tem adoptado uma política de “tolerância zero”, que prevê a suspensão de profissionais envolvidos em situações de má conduta no exercício das suas funções.
O caso mais recente ocorreu no Hospital Geral do Bengo, onde uma equipa médica foi suspensa preventivamente esta semana, por alegada negligência que resultou na morte de um bebé de cinco meses, na passada quinta-feira.
Outro episódio registou-se numa unidade hospitalar em Luanda, onde um bebé terá sido colocado com fita adesiva na boca para não chorar. A acção, igualmente atribuída a um grupo de profissionais de saúde, culminou também com a suspensão dos envolvidos.
Perante estes acontecimentos, impõe-se a questão: até que ponto as medidas disciplinares aplicadas pelo Executivo poderão inibir tais práticas e garantir uma assistência mais humanizada nos hospitais públicos?
O sociólogo e mestre em Política Social, José Ventura, entende que as suspensões, por si só, não resolvem o problema. “Estando perante uma perda irreparável, nenhuma suspensão trará de volta a vida. E, eventualmente, essa equipa médica poderá voltar a exercer funções”, afirmou.
Ainda assim, o académico considera que as medidas representam um passo importante. Para ele, a humanização deve ser o “cartão de visita” do Serviço Nacional de Saúde. “Embora as suspensões ou expulsões não tragam de volta vidas perdidas, podem servir como mecanismo dissuasor, evitando que outros profissionais actuem com menor responsabilidade”, sublinhou.
Segundo José Ventura, o processo de humanização começa no momento em que o profissional compreende que o seu trabalho tem uma dimensão social e está voltado para o cuidado das pessoas. “É fundamental que haja um compromisso ético, profissional e cultural no exercício da função”, reforçou.
Face aos sucessivos casos de negligência médica, o sociólogo defende mudanças que devem partir dos decisores políticos, dos gestores hospitalares e dos próprios profissionais de saúde, com maior sentido de responsabilidade e liderança assumida. “As pessoas recorrem às unidades sanitárias em busca de cuidados. Quando os resultados são negativos, fica evidente que, em alguns casos, não se está a trabalhar bem. A liderança deve assumir responsabilidades”, afirmou.
Recorde-se que, esta semana, a ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, reiterou a política de tolerância zero para casos de negligência médica, assegurando que o ministério continua atento às ocorrências registadas no país.

