Por José Ventura, Docente sociólogo e Mestre em Política Social
Luanda continua a ser a alma mater de Angola – o espaço simbólico e real onde todos se encontram, onde se cruzam sonhos, trajectórias, esperanças e desafios. Ao longo da nossa história recente, particularmente durante o período de conflito armado, a capital assumiu-se como o principal pólo de refúgio, segurança e oportunidades. Esse processo fez de Luanda a grande placa giratória do país, atraindo populações de todas as regiões, o que acelerou de forma intensa e desordenada a sua expansão urbana.
Essa pressão demográfica transformou profundamente a cidade. Luanda cresceu mais rápido do que a sua capacidade de planificação, tornando-se um espaço complexo, heterogéneo e, muitas vezes, difícil de governar. Hoje, falar de Luanda é falar da sua gente, mas também das suas contradições: é falar de diversidade social, de desigualdades, de informalidade urbana, mas igualmente de criatividade, resiliência e vitalidade cultural.
Luanda é, por excelência, um território de confluências.
Luanda é uma cidade transnacional no sentido étnico e cultural, onde estão representados todos os grupos etnolinguísticos do país. Aqui encontram-se o Norte, o Centro, o Sul e o Leste; aqui se misturam tradições, sotaques, hábitos e formas de estar. Essa diversidade não é um problema – é uma riqueza. Ela faz de Luanda um microcosmo de Angola.
Contudo, celebrar os 450 anos da cidade exige mais do que festividades. Exige um olhar crítico e responsável sobre os seus problemas estruturais.
Luanda enfrenta, há décadas, desafios persistentes como o saneamento básico, a gestão de resíduos, a degradação ambiental, o acesso à energia eléctrica, a mobilidade urbana e a segurança pública – a cidade onde as desigualdades são fortemente sentidas, visíveis por vários factores.
Para quem vive na cidade, sobretudo nos bairros periféricos, deslocar-se, ter água potável, viver em segurança ou usufruir de um ambiente saudável continua a ser um desafio diário.
Há, no entanto, um elemento simbólico importante nesta celebração: o rompimento com um velho paradigma. Pela primeira vez de forma clara, a comemoração dos 450 anos deixou de estar confinada à cidade histórica – à Ingombota – e passou a abranger toda a província. Todos os municípios celebraram Luanda. Este gesto é mais do que protocolar: ele destrói a ideia de uma Luanda exclusiva e reforça o sentimento de pertença colectiva.
Há muito que Luanda deixou de ser apenas dos luandenses de nascimento. Luanda pertence a todos os angolanos. É a capital que acolhe, que transforma, que mistura e que reinventa identidades. É a cidade que fez de muitos os seus filhos, independentemente da origem.
Celebrar Luanda é, portanto, celebrar essa vocação de acolhimento. Mas é também assumir o compromisso de a cuidar, planificar, humanizar e tornar mais justa. Porque uma capital que acolhe todos deve, igualmente, garantir dignidade para todos.

