Uma reflexão sociológica sobre a gravidade das generalizações públicas
Por :José Ventura, Professor e Mestre em Política Social
Recentemente, o músico Cleiton M afirmou que os jovens angolanos desta geração “não gostam de trabalhar”. É preciso dizer com clareza: essa afirmação está longe de refletcir a realidade. Mais do que uma opinião pessoal, declarações categóricas como esta têm impacto social e simbólico – e podem reforçar estigmas injustos sobre milhões de cidadãos.
Jovens em números: a realidade do Censo 2024
Segundo os dados do Censo Populacional de 2024, cerca de 46,8% da população tem menos de 15 anos, correspondendo a mais de 17 milhões de crianças e adolescentes.
A população em idade activa (15 anos ou mais) é de aproximadamente 17.414.877 pessoas.
Ou seja, Angola é um país estruturalmente jovem. A ideia de que “não gostam de trabalhar” ignora não apenas esses números, mas também as condições concretas do mercado de trabalho que moldam a vida desta juventude.
Precariedade e estrutura social
O sociólogo Ricardo Antunes mostra que a precarização do trabalho é um fenómeno global: jornadas longas, informalidade e ausência de direitos não indicam falta de vontade de trabalhar, mas fragilidade estrutural do sistema económico[^1].
José Paulo Netto acrescenta que essas mudanças atingem com maior intensidade os jovens, sobretudo das classes trabalhadoras[^2]. E, segundo Karl Marx, o desemprego e a precariedade são consequências da organização capitalista do trabalho – o chamado “exército industrial de reserva” – e não falhas individuais[^3].
No contexto angolano, a juventude enfrenta:
Elevada informalidade
Baixa diversificação económica
Insuficiente absorção de mão-de-obra qualificada
Fragilidade das políticas activas de emprego
Portanto, generalizações sobre “preguiça” são não apenas injustas, mas intelectualmente incorretas.
A juventude na prática
Nos bairros de Luanda e noutras cidades do país, jovens trabalham todos os dias em actividades que garantem a sua sobrevivência: carregadores, vendedores ambulantes, auxiliares de armazém, operadores de transporte informal, lavadores de viaturas, entre outros.
Estas práticas não são sinal de desinteresse; são estratégias de reprodução social, adaptando-se a um mercado marcado pela precariedade e pela informalidade[^4]. Ignorar essa realidade é viver num “mundo imaginário” que não corresponde à experiência concreta da juventude.
O peso das palavras
Quando figuras públicas emitem juízos absolutos sobre grupos sociais, reforçam estigmas e desviam a atenção das soluções estruturais. Ao dizer que os jovens não gostam de trabalhar, ignora-se a necessidade de políticas públicas que integrem esta força demográfica no mercado de trabalho.
Para transformar o chamado bónus demográfico em desenvolvimento, Angola precisa de:
Expansão de políticas de emprego formal
Industrialização e diversificação económica
Formação técnico-profissional alinhada às necessidades do mercado
Formalização gradual da economia informal[^5]
Sem estas medidas, o potencial de crescimento económico da juventude corre o risco de se tornar frustração social.
Conclusão
A juventude angolana não é um problema moral, mas um fenómeno estrutural. Atribuir-lhe a responsabilidade por problemas que são do sistema económico e institucional é intelectualmente perigoso e socialmente injusto.
Este é, também, um artigo-aula: discursos públicos têm peso. Criticar é legítimo, mas reduzir milhões de jovens a um estereótipo moral cria falácias e reforça preconceitos. O desafio é compreender e transformar estruturas – não julgar moralmente a juventude.
Referências
[^1]: Antunes, R. (2010). O Novo Trabalho: Ensaios sobre a Nova Morfologia do Trabalho Contemporâneo. São Paulo: Boitempo.
[^2]: Netto, J. P. (2007). O Trabalho na Sociedade Contemporânea: Transformações e Desigualdades. São Paulo: Cortez Editora.
[^3]: Marx, K. (1867). O Capital: Crítica da Economia Política. Tomo I.
[^4]: Castel, R. (1995). Les Métamorphoses de la Question Sociale. Paris: Fayard.
[^5]: IBGE & INE Angola (2024). Censo Populacional 2024. Luanda: Instituto Nacional de Estatística


