Por José Ventura – Mestre em Serviço Social e Política e docente universitário.
Não sou parte do sindicato de professores, mas, na verdade, sempre trabalhei no sector da educação desde o ensino geral até ao universitário e muito me orgulho do contributo que tenho dado. Como disse Émile Durkheim, um dos mais importantes teóricos da sociologia da educação, esta, para além de ser um facto social, é uma acção exercida pela geração adulta e preparada sobre aquelas que ainda não se encontram prontas para a vida social, transmitindo valores, normas e saberes que lhes permitirão integrar-se na sociedade.
Este processo é conduzido pelos educadores e os professores que se dedicam a uma missão da qual muitos fogem, não a querem assumir, embora seja nobre e bela. Porquê? Talvez por causa da precariedade, da desvalorização e da subalternização que persistem na profissão. Convenhamos: há pouca valorização do professor, sobretudo do professor do ensino geral. A vida social do docente continua estagnada; há quem diga que depender exclusivamente da profissão é quase um suicídio.
Mesmo quando se argumenta que a remuneração é minimamente aceitável, os subsídios atribuídos à classe continuam extremamente baixos. Para se ter uma ideia, quem trabalha no Laboratório Geológico de Angola recebe um subsídio mínimo de 300.000,00 Kz valor equivalente ao salário de um professor do sexto grau. Outra comparação evidencia ainda mais o paradoxo: um professor licenciado no subsistema de ensino superior público aufere, com subsídios, um salário próximo de 800.000 Kz por mês, enquanto um professor do ensino geral, com o mesmo nível de formação ou até superior à graduação, recebe muito menos, mesmo exercendo funções fundamentais para a formação de todos os cidadãos.
Outro paradoxo no sector da educação tem a ver com a formação permanente. Quase todos os professores reclamam: não há incentivo, não há abertura, não há suporte real. Mesmo quando surge uma oportunidade por outras vias, o Ministério da Educação não dispensa o professor para formação; e aqueles que conseguem oportunidades no exterior fazem-no, muitas vezes, por esquemas informais, amizade ou redes de contacto pessoais.
Não se constrói um sistema educativo sólido com professores sem incentivos para a formação ao nível da pós-graduação e para a superação permanente. Os chamados pseudo-seminários de capacitação, que pouco ou nada acrescentam, não podem ser considerados formação contínua. O local de trabalho, em muitos casos, devido à precariedade, não dignifica nem os alunos nem os professores. E sem ambientes dignos, sem estímulos e sem políticas reais de valorização académica, o discurso de qualidade educativa torna-se apenas retórica institucional.
Em outras palavras, o sector da educação não é atractivo para jovens sonhadores. Sem condições, progressão ou oportunidades de superação, quem entra na educação ou se adapta por conta própria e busca estudar por iniciativa própria, ou permanece estagnado, como entrou.
Este cenário compete a todos nós repensar. Compete ao Estado criar condições reais de dignidade para o professor. Compete à sociedade reconhecer que nenhuma nação progride quando desvaloriza aqueles que formam todas as outras profissões. E compete a nós, educadores, continuar a levantar a voz, não apenas por interesse próprio, mas pelo futuro do país, porque sem professor não há médico, engenheiro, jurista, economista, técnico ou líder.
A valorização do professor não pode continuar a ser um discurso politicamente correcto; precisa transformar-se em política concreta. Investir no professor é investir no desenvolvimento nacional, é tão simples quanto isso.

