Por José Ventura, Docente sociólogo e Mestre em Política Social
Uma das marcas estruturantes de 2025 foi a consolidação de uma perigosa ilusão cognitiva: a crença generalizada de que produzir texto equivale a produzir pensamento e de que a exposição pública substitui o saber efectivamente construído. Livros foram lançados de forma apressada, discursos multiplicaram-se nas redes sociais e a escrita passou a ser confundida com reflexão. Como advertia Hannah Arendt, “pensar não é acumular palavras, mas exercer o juízo; quando este se ausenta, instala-se a banalização” – não apenas do mal, mas também da mediocridade intelectual. O resultado não foi a democratização do conhecimento, mas a expansão de uma imbecilidade funcional, travestida de erudição, que ocultou a ignorância sob a aparência de produtividade discursiva.
A Inteligência Artificial desempenhou um papel central nesse processo, ao favorecer o surgimento de novas figuras intelectuais, muitas delas de natureza pseudo-orgânica: sujeitos que aparentavam escrever, analisar e interpretar, mas que nada tinham a dizer sem a mediação algorítmica. Aqui, a crítica de Theodor Adorno (2001) ” à indústria cultural ganha nova actualidade: a padronização do conteúdo não elimina apenas a originalidade, mas corrói a própria capacidade de pensar de forma autónoma” . A IA passou a operar como prótese cognitiva que, longe de ampliar a razão, frequentemente a substituiu.
Assistiu-se, assim, à dispensa do consultor, do editor, do debate crítico e até da dúvida epistemológica, substituídos pela crença ingénua de que a tecnologia poderia, silenciosamente, confirmar talentos e saberes que nunca haviam sido social ou academicamente construídos. Como diria Pierre Bourdieu (1998), tratou-se de uma tentativa de adquirir capital simbólico sem percorrer os trajectos legítimos de formação, esforço e reconhecimento no interior dos campos académico e cultural.
Nesse contexto, proliferaram prémios, distinções e consagrações simbólicas, inaugurando uma corrida pela legitimação pública sem lastro intelectual. Critérios supostamente objectivos foram estabelecidos, muitas vezes moldados para satisfazer redes de influência, pares complacentes e figuras dotadas de poder simbólico. O mérito cedeu lugar à visibilidade, confirmando a lógica bourdieusiana segundo a qual “o reconhecimento pode ser produzido artificialmente quando os mecanismos de consagração são capturados por interesses externos ao campo”.
O campo da comunicação social não ficou imune a esse fenómeno. Portais de informação surgiram sem domínio das técnicas de redacção jornalística, sem ética profissional e sem compromisso com a verificação factual. Ainda assim, sob o pretexto da Inteligência Artificial, muitos se autoproclamaram jornalistas, analistas ou cronistas. Neil Postman (2019) já alertava para sociedades que se divertem – ou se informam – até à exaustão, confundindo ruído com conteúdo e velocidade com verdade.
Em 2025, essa advertência revelou-se particularmente pertinente.
Nas instituições escolares e no ensino superior, a crise assumiu contornos ainda mais graves. O desafio deslocou-se para o controlo da presença da Inteligência Artificial nas épocas de avaliação.
Muitos estudantes passaram a ver na IA um instrumento de fraude, enquanto as instituições foram compelidas a desenvolver mecanismos de vigilância e contenção. Aqui, a reflexão de Michel Foucault (2006) sobre disciplina e controlo torna-se incontornável: a escola viu-se forçada a reforçar dispositivos de vigilância num contexto em que a própria produção do saber se tornara instável. Os docentes, por sua vez, tornaram-se mais cautelosos, embora alguns também recorressem à IA como apoio metodológico. O uso ético, crítico e pedagogicamente orientado da Inteligência Artificial passou, assim, a constituir um dos maiores desafios contemporâneos da educação.
Ainda mais preocupante foi a incorporação acrítica da Inteligência Artificial na gestão pública. Alguns gestores passaram a administrar instituições quase exclusivamente com base em conteúdos gerados por IA. Pareceres, discursos, relatórios, ofícios e projectos foram produzidos não como instrumentos de planeamento estratégico ou de formulação de políticas públicas, mas como dispositivos formais destinados a legitimar decisões já tomadas ou a viabilizar a apropriação de recursos públicos. Longe de representar racionalidade administrativa, esse uso da tecnologia revelou, em muitos casos, a ausência de ideias, de visão política e de responsabilidade ética.
Assim, 2025 não ficará marcado como o ano da emancipação intelectual promovida pela tecnologia, mas como o momento histórico em que se confundiu ferramenta com inteligência, automatização com pensamento e visibilidade com mérito. Mais do que o triunfo da Inteligência Artificial, foi o ano da nossa rendição crítica – e, em larga medida, o ano da nossa imbecilidade colectiva.
Que em 2026 saibamos corrigir os vícios, fazendo o proveito crítico e racional da IA que veio para ficar

