Vários pedintes que vivem nas ruas de Luanda denunciaram ao nosso jornal que são obrigados a pagar pequenas quantias de dinheiro a seguranças de alguns estabelecimentos para poderem passar a noite em determinadas esquinas consideradas mais seguras.
Por: Benhão Sapo
Segundo os relatos, os seguranças controlam certos espaços próximos de lojas e instituições e permitem que pessoas sem-abrigo ali durmam, desde que paguem um valor diário. Em troca, os pedintes acreditam estar mais protegidos contra possíveis ocorrências e sentem-se relativamente mais seguros.
Áreas como o bairro de São Paulo, Primeiro de Maio e zonas próximas ao Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro são apontadas como alguns dos locais onde é frequente encontrar adultos, adolescentes e sobretudo crianças a dormir ao relento, alegadamente por falta de habitação.
Esperança e José, ambos com 13 anos, afirmam que dormem num posto de segurança onde pagam diariamente 100 kwanzas para ter acesso ao espaço.
Esperança contou que cresceu praticamente nas ruas. Segundo ela, vivia com uma mulher que a criou na Ilha de Luanda, mas após a morte desta acabou por ficar sozinha.
“Cresci aqui na rua. Vivia com uma senhora que me criou na Ilha de Luanda, mas ela morreu e fiquei sozinha. Agora peço ajuda na estrada. Não conheço os meus pais. Vivo de esmolas e às vezes algumas pessoas dão-me dinheiro, que uso para comprar comida”, contou.
A adolescente afirmou ainda que já foi encaminhada para um centro de acolhimento da cidade de Luanda, mas decidiu fugir devido às más condições.
“Chegávamos ao ponto de assar beringela para comer com funge”, disse.
Questionada sobre possíveis situações de abuso sexual, Esperança afirmou que evita aceitar propostas suspeitas e que, quando algo acontece, denuncia à polícia.
“Procuro dormir sempre perto de estabelecimentos comerciais onde há segurança para evitar problemas”, acrescentou.
Já José disse esperar que alguém de boa fé apareça para ajudá-lo a sair da rua.
“Se aparecer alguém para me tirar daqui, vou aceitar. Não gosto de viver na rua. Tenho de pagar sempre 100 kwanzas e sinto que gasto muito. Quando é criança pequena, os seguranças cobram cerca de 20 kwanzas”, contou.
As crianças e adolescentes relatam ainda que a vida nas ruas apresenta muitos desafios. Jurelma, outra jovem entrevistada, disse que muitas raparigas são abordadas por homens mais velhos que tentam aproveitar-se da vulnerabilidade em que se encontram.
“Há muitos problemas. Às vezes a polícia também nos afasta e há alguns jovens que chegam a roubar as nossas coisas”, relatou.
Jurelma afirmou que não vive permanentemente na rua, mas que passa algumas noites ali devido às amizades que fez naquele ambiente.
“Às vezes digo à minha mãe que vou dormir na casa de uma amiga, mas na verdade venho para a rua, onde me sinto melhor. Os meus pais não sabem. Quando não há comida em casa, venho pedir ajuda às pessoas”, confessou.
Anita Mendes, que carregava um bebé de apenas quatro meses, contou que vive na rua com o marido e os três filhos depois de deixarem de conseguir pagar a renda da casa.
“Vivo aqui porque já não conseguimos pagar a renda. Estou aqui com as crianças e o pai delas. Precisamos de ajuda. Temos aproveitado o bom senso de alguns seguranças que controlam estes locais para dar banho às nossas crianças num posto próximo do jardim onde passamos a noite. Temos medo de ficar aqui, mas é Deus quem nos ajuda. Tentei voltar para casa da minha mãe, mas não houve entendimento com o meu padrasto e acabei por regressar à rua com os meus três filhos”, relatou.
E recentemente a directora do Lar de Infância Kuzola, Engrácia dos Céu, disse que as crianças não pedem para nascer, elas precisam ser amadas e educadas no seio da família tendo apelado na ocasião à igreja a sensibilizar as famílias para que estas verdadeiramente assumam as suas responsabilidades.

