Os orçamentos dos Estados africanos devem priorizar as áreas da saúde, educação e agricultura como pilares fundamentais para o desenvolvimento do continente. A defesa é do historiador Dinis Miguel, que reagiu à recente presidência rotativa da União Africana (UA), formalizada no último sábado, em Adis Abeba, Etiópia.
Por:João Afonso
Segundo o historiador, para que África alcance um desenvolvimento sustentável, é necessário enfrentar problemas estruturais como doenças, fome, pobreza e a desorganização urbana – desafios ainda presentes apesar da implementação da Agenda 2063, que tem como foco a construção de grandes infraestruturas no continente.
Dinis Miguel sublinha que a educação em África continua fragilizada, apontando também os golpes de Estado e os conflitos armados como entraves significativos ao progresso. Entre os exemplos citados, destacou as tensões entre Ruanda e a República Democrática do Congo, além dos desafios económicos enfrentados por alguns blocos regionais africanos.
O historiador reconhece, contudo, a importância de projectos estruturantes como o Corredor do Lobito, que integra vários países africanos com o apoio da União Europeia e dos Estados Unidos. Para ele, o novo presidente da UA deverá dar continuidade aos objectivos estratégicos já delineados para o continente.
Uma das questões que mais suscitam debate, tanto em círculos nacionais como internacionais, é se África está preparada para caminhar de forma autónoma. Dinis Miguel questiona essa capacidade, afirmando que o continente ainda carrega heranças coloniais profundas e que continua, em certa medida, dependente de modelos administrativos europeus.
Na sua perspetiva, África precisa sentar-se para traçar uma agenda teórica própria, debatida nas universidades, que permita a escolha de um modelo de governação ajustado às suas realidades.
Unidade africana ainda distante
Para o historiador, o alinhamento político divergente entre países africanos constitui um dos principais obstáculos à consolidação da unidade continental. Como exemplo, cita o Burkina Faso, que se aproxima da Rússia, e Angola, que mantém relações próximas com os Estados Unidos.
Segundo ele, este antagonismo ideológico e geopolítico dificulta a construção de uma liderança africana coesa. “Precisamos, pelo menos nesta fase, de uma liderança unida em 75% do pensamento e das acções concretas”, defende.
Relativamente à nova presidência da UA, Dinis Miguel considera que o Chefe de Estado do Burundi, Évariste Ndayishimiye, enfrentará inúmeros desafios, mas acredita que dará continuidade ao plano estratégico já estabelecido, procurando novas formas de resolução dos problemas do continente.
O historiador destaca ainda o papel do Presidente angolano João Lourenço, que exerceu a presidência rotativa da UA durante um ano, sublinhando que um dos seus principais objectivos foi a promoção da unidade, solidariedade e progresso em África.
Recorde-se que, em Adis Abeba, João Lourenço anunciou que a cidade de Luanda poderá acolher ainda este ano uma sessão extraordinária da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana, dedicada à análise de mecanismos para responder às ameaças à paz, segurança e desenvolvimento do continente.

