O Carnaval de Luanda continua a ser considerado a maior manifestação cultural do povo angolano, simbolizando união, identidade e alegria. No entanto, muitos apreciadores da festa questionam as razões que levaram ao desaparecimento do tradicional carnaval de rua nas diversas artérias da cidade de Luanda.
Por: João Afonso
Populares ouvidos pelo nosso jornal defendem que o carnaval deve assumir uma dimensão verdadeiramente nacional, começando nos bairros, passando pelos municípios e províncias, até culminar numa celebração em todo o território. Segundo afirmam, actualmente os holofotes estão concentrados apenas nos centros urbanos, sobretudo na capital, deixando de lado o envolvimento directo das comunidades.
Há também quem defenda a criação de mais espaços culturais nas comunidades, onde os grupos carnavalescos possam desenvolver as suas actividades. Além disso, apelam a uma maior divulgação por parte dos órgãos de comunicação social, de modo a fortalecer e valorizar esta importante manifestação cultural.
O professor Avelino Justino Kambanda, licenciado em Direito e residente no município do Cazenga, recorda com nostalgia o envolvimento comunitário de outrora. Segundo explica, antigamente era comum assistir-se ao chamado “carnaval de rua”, onde as pessoas desfilavam pelas ruas antes mesmo de os grupos se apresentarem no palco principal. O jurista denuncia ainda que muitos espaços culturais foram transformados em armazéns, o que compromete a transmissão desta tradição às novas gerações.
Por sua vez, Silvestre Mande, especialista em Geodemografia e residente no município do Hoji-Ya-Henda, considera que a dinâmica demográfica actual está mais voltada para a economia. De acordo com ele, as famílias encontram-se mais preocupadas com a situação económica, relegando a cultura para segundo plano. Defende, por isso, maior envolvimento das escolas, das famílias e dos meios de comunicação social na promoção do carnaval.
Já o antropólogo Eduardo Patrício alerta para as influências externas que, no seu entender, têm descaracterizado a cultura angolana. Para ele, o desfile carnavalesco deve reflectir hábitos e costumes próprios da angolanidade. Critica a tendência de imitação de outros países, referindo que certos comportamentos e indumentárias colocam em causa os valores culturais nacionais. Ainda assim, acredita ser possível resgatar os valores morais e culturais, desde que haja uma reflexão profunda da sociedade.
Recorde-se que o grupo União Mundo da Ilha, do município da Ingombota, lidera a galeria dos vencedores do Carnaval de Luanda, com 14 títulos conquistados. O actual campeão da Classe A é o União Recreativo do Kilamba, do município do Rangel.
Na presente edição, sob o lema “Carnaval, a Nossa Identidade na Valorização Cultural”, desfilam 13 grupos da Classe A. Antes do acto central, 15 grupos das classes Infantil e B de Adultos já se apresentaram na Nova Marginal, num ambiente marcado pela tradição, diversidade cultural e valorização das novas gerações, conforme avançou o Jornal de Angola.
Estão mobilizados mais de 800 efectivos do ministério do interior para garantir a segurança do evento, e a organização promete para os próximos dias a construção de um museu do carnaval, com vista a melhor acolher e preservar a memória da maior festa cultural do país. Entre os ritmos e expressões culturais presentes destacam-se o semba, a kazukuta e a cabecinha, interpretados por grupos emblemáticos como a União Mundo da Ilha, União Sagrada Esperança, União Kiela e União Recreativo do Kilamba.
Os resultados finais do concurso serão divulgados na próxima quarta-feira, 18 de Fevereiro.


