Por : Alcides Chivangu | O Contador de Histórias
Gosto de Luanda! Tem uma beleza extraordinária. A Baixa, a Marginal, o mar e aquele movimento que parece nunca dormir.
Tenho saudades do nosso Roque Santeiro. Sim, daquele que foi um dos mercados ao ar livre mais emblemáticos de Angola. Quantas vezes passei por lá para comprar fardos! O Roque fechou, mas continua aberto na memória de muitos luandenses.
Há quem diga, com um sorriso, que Luanda se parece com Estocolmo. Será? (sorrisos).
Luanda tem o seu próprio encanto. É agitada, barulhenta, cheia de negócios, oportunidades e contradições. O trânsito testa a nossa paciência, a desorganização urbana desafia o nosso quotidiano e, por vezes, parece que cada um procura salvar-se como pode.
Mas eu gosto de Luanda. E é precisamente porque gosto dela que sonho com uma cidade melhor. Uma cidade onde a beleza da Marginal se encontra com a dignidade dos bairros; onde o negócio convive com a ética; onde a modernidade não apaga a memória e onde o desenvolvimento não deixa ninguém para trás.
Luanda tem uma história espiritual singular. Foi baptizada como São Paulo de Loanda. E pergunto-me: poderá uma cidade também santificar-se? Não no sentido de ser perfeita, mas no sentido de se tornar mais humana, solidária e fraterna? Acredito que sim.
Quando olhamos para a Muxima, encontramos um lugar de fé, peregrinação e encontro. E quando imaginamos o futuro de Angola, podemos sonhar com uma Basílica de Nossa Senhora da Muxima que fortaleça ainda mais essa dimensão espiritual e faça da Muxima um espaço de diálogo entre a fé, cultura e humanidade.
Mas nenhuma basílica, por mais grandiosa que seja, substituirá a nossa responsabilidade de construir uma cidade digna para todos.
Por isso, convoco o Otchoto, a sabedoria dos nossos antepassados e a filosofia Ubuntu, para sentarmo-nos à volta da mesma fogueira, escutarmo-nos e procurarmos soluções em conjunto.
A cidade real é aquela em que vivemos. A cidade ideal é aquela que podemos construir. E a Cidade da Felicidade começa quando cada cidadão assume a sua parte nessa construção.
Para uma cidade mais feliz precisamos percorrer alguns caminhos, como planear melhor os bairros, as estradas e os transportes; garantir mais higiene, saneamento e espaços verdes; promover negócios com ética e oportunidades para os jovens; escutar os cidadãos e envolvê-los nas decisões públicas e recuperar a memória, a cultura, a solidariedade e o sentido de comunidade.
Não precisamos de transformar Luanda noutra cidade. Precisamos de fazer de Luanda a sua melhor versão.
Amar uma cidade não é esconder os seus problemas. É ter coragem de os reconhecer e vontade de os resolver.
E tú que amas Luanda: o que farias hoje para aproximá-la da Cidade da Felicidade?
Alcides Chivangu
O Contador de Histórias

