Cidadãos em Bula-Atumba continuam a desafiar a morte na busca por ouro
A corrida ao ouro em Bula-Atumba, província do Bengo, continua a atrair dezenas de cidadãos dispostos a arriscar a própria vida em busca de melhores condições financeiras. Entretanto, a actividade de garimpo está a ser associada a um surto de doenças diarreicas agudas (DDA), alegadamente provocado pela contaminação das águas do rio Lumbiji.
Por : João Afonso
Até ao fecho desta reportagem, o Hospital Geral de Bula-Atumba confirmou oficialmente apenas uma morte intra-hospitalar relacionada com os casos suspeitos de contaminação. No entanto, dados divulgados pelo grupo RNA-Bengo apontam para um total de dez óbitos.
Durante uma visita ao local dos acontecimentos, o administrador municipal de Bula-Atumba, Cândido Manuel, esclareceu que seis garimpeiros morreram no local da exploração e outros quatro perderam a vida depois de darem entrada no hospital em estado considerado terminal.
Por sua vez, a directora do Hospital Geral de Bula-Atumba, Maria João, explicou que, apesar de a unidade hospitalar ter recebido vários pacientes com sintomas de doenças diarreicas agudas, apenas um óbito foi contabilizado como intra-hospitalar. Segundo a responsável, os restantes doentes chegaram já em estado crítico, sendo classificados como casos extra-hospitalares.
“Tivemos, sim, alguns pacientes que deram entrada com esse problema, mas o hospital registou apenas uma morte. Os pacientes alegam que a água do rio Lumbiji está contaminada, razão pela qual apresentam este quadro clínico”, esclareceu.
Enquanto isso, as autoridades sanitárias continuam a realizar investigações e análises laboratoriais para determinar a verdadeira origem da contaminação e confirmar as causas do surto.
Entre os sobreviventes está António Manuel Lourenço, de 22 anos, residente no bairro Kikionzo. O jovem permaneceu internado alguns dias no Hospital Geral de Bula-Atumba e contou à nossa reportagem que decidiu dedicar-se ao garimpo para conseguir dinheiro suficiente para construir a sua casa.
Segundo António, esta foi apenas a segunda vez que participou na exploração artesanal de ouro. Apesar dos riscos, ele e os companheiros conseguiram extrair apenas uma grama do minério.
“Foi a minha segunda vez no garimpo e espero não voltar mais. Dou graças a Deus por estar a recuperar. Cheguei ao hospital quase morto, mas os enfermeiros fizeram tudo para me salvar e hoje estou vivo.”
Questionado sobre o valor do ouro extraído, António afirmou que uma grama pode ser comercializada por cerca de um milhão de kwanzas, valor que continua a motivar muitos jovens a enfrentar os perigos da actividade.
Entretanto, informações divulgadas pela agência Lusa, com base numa fonte do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, dão conta de relatos de mal-estar generalizado e de vários óbitos entre a população local. As suspeitas recaem sobre a utilização de produtos químicos durante o processo de exploração de ouro.


