POR:
ALCIDES CHIVANGU
ALUPOLO.
OLUPOLO!
– LWIYE!
Alupolo!
Era uma vez uma comunidade onde todos tinham opinião, mas poucos tinham coragem de a expressar.
Nessa comunidade, o líder raramente estava errado. Quando tomava uma decisão acertada, recebia aplausos. Quando errava, os seus seguidores encontravam sempre uma explicação para justificar o injustificável.
Quem concordava era considerado leal. Quem questionava era tratado como inimigo.
Com o passar do tempo, a verdade deixou de ser o critério das decisões. O que passou a importar era saber de que lado cada pessoa estava.
E assim, lentamente, a inteligência foi perdendo espaço para a conveniência, o pensamento crítico para o conformismo e a consciência para a bajulação.
Mas havia algo ainda mais preocupante: aqueles que criticavam a cegueira dos outros nem sempre reconheciam as vezes em que também tinham seguido a multidão, mesmo sabendo que ela caminhava na direcção errada.
Esta história não acontece apenas na política. Acontece nas empresas, nas igrejas, nas universidades, nas famílias e em quase todos os espaços onde a pertença a um grupo se sobrepõe à liberdade de pensar.
Na Psicologia Social, encontramos explicações para este fenómeno no conformismo e na pressão do grupo. O ser humano, por necessidade de aceitação, pode chegar ao ponto de sacrificar a própria capacidade de julgamento.
Contudo, uma organização em que ninguém pode discordar está a construir silenciosamente as condições do seu próprio fracasso.
É preciso compreender que a verdadeira lealdade não consiste em defender todos os actos de um líder, mas em ter coragem de lhe dizer a verdade, mesmo quando ela incomoda.
A filosofia Ubuntu ensina-nos que a humanidade se constrói na relação com os outros. Ora, se somos porque os outros são, não podemos transformar a convivência numa cumplicidade com o erro.
A lealdade não pode ser superior à verdade, nem a pertença a um grupo pode estar acima da dignidade humana e do bem comum.
Escrevo não para apontar o dedo aos outros, mas para convidar cada um de nós a fazer um exercício de consciência.
Quantas vezes defendemos uma decisão apenas porque veio do nosso lado? Quantas vezes permanecemos em silêncio diante de uma injustiça para não perdermos a simpatia de alguém?
Talvez o maior sinal de inteligência não seja convencer os outros de que temos razão, mas ter humildade para reconhecer que podemos estar errados.
Porque uma sociedade não precisa apenas de pessoas que saibam seguir líderes. Precisa de cidadãos que saibam pensar, questionar, discordar e assumir responsabilidades.
Alupolo! Que nunca nos falte coragem para pensar, liberdade para questionar e humildade para reconhecer a verdade, venha ela de que lado vier.
Luanda, 2050
Alcides Chivangu
chivangu.pro

