Esta quarta-feira, 8 de julho, assinalam-se quatro anos desde a morte do antigo Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, falecido em 2022, aos 79 anos, numa clínica em Barcelona, Espanha, onde se encontrava internado nos cuidados intensivos.
Por : João Afonso
A saída de José Eduardo dos Santos da Presidência da República, em setembro de 2017, seguida da renúncia à liderança do MPLA, em setembro de 2018, marcou uma das mais importantes transições políticas da história recente de Angola. Depois de 38 anos no poder, o país entrou numa nova etapa, despertando entre os angolanos novas expectativas, diferentes paradigmas e a percepção de que nenhum ciclo político é eterno.
Para muitos, aquele momento simbolizou que, por mais sólido que pareça o poder, ele é sempre transitório. O tempo encarrega-se de demonstrar que quem hoje exerce influência pode amanhã perdê-la e que a própria vida está sujeita ao seu curso inevitável.
A morte de José Eduardo dos Santos foi igualmente marcada por uma disputa familiar e institucional em torno da trasladação dos seus restos mortais. Durante várias semanas, alguns dos seus filhos opuseram-se ao regresso do corpo para Angola, dando origem a uma intensa batalha judicial em Espanha. Posteriormente, o corpo foi trasladado para Luanda, onde decorreram as cerimónias fúnebres oficiais.
Desde então, a realidade da família do antigo Chefe de Estado alterou-se significativamente. Alguns dos seus filhos, que durante anos ocuparam posições de grande influência no país, passaram a viver no exterior ou a enfrentar processos judiciais.
O Presidente da República, João Lourenço, tem rejeitado as acusações de que exista perseguição política contra familiares do seu antecessor, sustentando que os processos em curso decorrem da actuação das instituições judiciais.
Entretanto, Isabel dos Santos continua a ser alvo de processos na justiça angolana, enfrentando acusações relacionadas com crimes de peculato, burla qualificada, participação económica em negócio, tráfico de influência, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais.
Por sua vez, Tchizé dos Santos, deputada eleita pelo MPLA, deixou de exercer as suas funções parlamentares e permanece no exterior, alegando falta de condições de segurança para regressar ao país.
Já José Filomeno dos Santos (“Zenú”) foi condenado, em 2020, a cinco anos de prisão no âmbito do chamado “Caso dos 500 Milhões”. Contudo, em abril de 2024, o Tribunal Constitucional anulou essa condenação por considerar que o processo apresentava inconstitucionalidades.
Nascido em Luanda, a 28 de agosto de 1942, José Eduardo dos Santos sucedeu a Agostinho Neto na Presidência da República em setembro de 1979. Durante quase quatro décadas de governação, conduziu Angola em períodos marcados pela guerra civil e acompanhou o processo que culminou com a assinatura da paz em 2002.
O funeral de Estado realizou-se a 28 de agosto de 2022, na Praça da República, em Luanda, coincidindo com a data em que completaria 80 anos de idade. A sua morte motivou a decretação de cinco dias de luto nacional e encerrou um dos mais longos ciclos de liderança política da história de Angola.
Quatro anos depois da sua morte, a trajectória de José Eduardo dos Santos continua a suscitar diferentes leituras. Para uns, permanece como uma figura incontornável da história contemporânea angolana; para outros, o desenrolar dos acontecimentos após a sua saída do poder demonstra que a influência política, tal como a vida, é passageira e que o tempo acaba por revelar realidades que, em determinado momento, pareciam invisíveis.

