No centro histórico de Beja, o número 4 da Rua Alexandre Herculano ficou conhecido entre imigrantes como “La Pension”. Um nome enganador para um edifício degradado que, durante anos, serviu de abrigo a centenas de pessoas, e de morada, no papel, a quase mil. A maior parte imigrantes senegaleses. De acordo com Alberto Matos, da Associação Solidariedade Imigrante, “passaram por aquela morada mais de mil atestados de residência ao longo dos anos”, um número que ajuda a perceber a dimensão do fenómeno.
Hoje está vazio, depois de uma evacuação urgente por parte da Câmara Municipal de Beja, devido ao risco de colapso. O prédio encontra‑se em avançado estado de degradação, com partes do teto já desmoronadas. Mas, o que ali aconteceu está agora no centro de uma investigação das autoridades, que procuram perceber a dimensão de um possível esquema de arrendamento ilegal, venda de moradas e eventuais crimes associados à imigração ilegal.
“Estavam 39 pessoas. Em cada quarto dormiam três ou quatro”, recordou Francisco Sargento, de 69 anos, um dos poucos portugueses que ali viveu durante mais de uma década. A companheira, Teresa Gonçalves de 71 anos, descreveu a evolução: “Dos 30 passaram para quase 90. Cheguei a encontrar pessoas a dormir na cozinha. Levantava‑me às oito da manhã e estava tudo a dormir no chão.”
Este casal pagava cerca de 150 euros por mês por um quarto. Já os imigrantes entre 70 a 80 euros por uma cama, num espaço cada vez mais degradado, com infiltrações, estruturas improvisadas e, a certa altura, apenas uma casa de banho para tantos ocupantes. Mas o prédio não servia apenas para dormir. Vários imigrantes relataram que aquele endereço era usado, mediante pagamento, para efeitos administrativos. Nem viviam lá.
O objetivo era conseguir documentos essenciais: número de Segurança Social, acesso ao Serviço Nacional de Saúde, e até para receber a cartas da AIMA durante o processo de legalização. A dimensão deste esquema tornou‑se evidente nas próprias instituições. “Há muito tempo deixámos de emitir atestados de morada para a Rua Alexandre Herculano n.º 4, porque havia excesso de pessoas associadas à morada”, explicou Clara Velhinho, técnica da União das Freguesias de Salvador e de Santa Maria. “Grande parte não residia realmente ali”, acrescentou.
Após os alertas da Junta, a dificuldade em travar o fenómeno tornou‑se evidente. O presidente da União de Freguesias de Salvador e Santa Maria, Luís Filipe Figueira, enquadra o problema num contexto mais amplo: “É um problema essencialmente do município e até de âmbito nacional.”
Fonte CNN

