Marcado por presença elevada de cidadãos a procurar comida em contentores de lixo.
O acesso irregular à alimentação continua a ser um dos maiores desafios enfrentados por muitas famílias angolanas. O elevado custo de vida tem levado vários cidadãos a recorrerem a restos de comida descartados por restaurantes, residências e outros estabelecimentos para garantir a própria sobrevivência.
Por: João Afonso
Contudo, a preocupação não se limita apenas à falta de alimentos. A questão da segurança alimentar também se impõe, uma vez que, para muitos, o mais importante é conseguir algo para comer, sem considerar os procedimentos de higiene e conservação recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Celebrado globalmente a 7 de junho, o Dia Mundial da Segurança Alimentar foi instituído para alertar sobre os riscos associados ao consumo de alimentos contaminados e promover práticas que protejam a saúde pública.
Embora algumas pessoas recorram aos contentores de lixo por diferentes razões, é uma realidade visível em várias zonas urbanas e periféricas do país a presença de cidadãos que procuram alimentos entre os resíduos descartados, ignorando muitas vezes os riscos que essa prática representa para a saúde.
Martins, nome fictício, é um desses cidadãos. Diariamente desloca-se às centralidades em busca de algo para comer. Sem qualquer fonte regular de sustento alimentar, encontra nos contentores uma alternativa para sobreviver.
Outro cidadão, que preferiu não ser identificado, afirma que os contentores têm sido a sua principal fonte de alimentação nos últimos anos.
“Quando vemos alguém a dirigir-se ao contentor para deitar lixo, pedimos o saco e começamos a verificar se há alguma coisa que ainda possa ser consumida”, relata.
Para o mestre em Política Social, José Ventura, trata-se de uma realidade presente no quotidiano angolano.
“Crianças, jovens e adultos recorrem diariamente a contentores e aterros para recolher alimentos”, afirma.
Segundo o especialista, este fenómeno não é recente. Mesmo antes da independência, muitas famílias já enfrentavam situações semelhantes. Infelizmente, para uma grande parte da população, a pobreza não é transitória nem temporária; é uma condição persistente, cuja superação ocorre de forma muito lenta.
“As pessoas não recorrem às lixeiras porque desejam alimentar-se dessa forma, mas porque são empurradas por circunstâncias históricas e estruturais. A pobreza é socialmente construída e reproduzida. Ir à lixeira é uma forma de luta pela sobrevivência, uma alternativa desesperada diante da fome. A pobreza dói”, sublinha.
As políticas públicas angolanas voltadas para a segurança alimentar são orientadas pela Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (ENSAN II), que tem como principal objectivo erradicar a fome, reduzir a pobreza e promover o acesso universal a uma alimentação adequada, através do fortalecimento dos sistemas de produção, distribuição e consumo de alimentos.


