Apesar dos constantes alertas das autoridades sanitárias, muitos consumidores de tabaco continuam a ignorar os perigos associados ao cigarro. A advertência “Fumar prejudica a saúde”, estampada nos próprios maços, parece não ser suficiente para travar o consumo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabagismo é a principal causa de morte evitável no mundo, sendo responsável por mais de 8 milhões de óbitos por ano.
Por : João Afonso
O Dia Mundial Sem Tabaco, assinalado anualmente a 31 de maio, foi criado pela OMS com o objectivo de sensibilizar a população para as doenças e mortes evitáveis relacionadas ao consumo de produtos derivados da nicotina.
Joaquim Satito (nome fictício), de 16 anos, conta que começou a fumar aos nove anos, quando encontrou na rua o seu refúgio. Segundo o adolescente, a vida nas ruas expõe os jovens a diferentes experiências, muitas delas prejudiciais.
“Abandonei a casa dos meus pais porque o ambiente não era favorável. Decidi seguir a vida na rua, onde continuo até hoje. Aqui encontrei uma nova família. Não me sinto bem quando passo um dia sem fumar”, relatou.
Outro cidadão, de 40 anos, que preferiu manter o anonimato, afirma estar consciente dos riscos do tabagismo, mas acredita que consegue controlar o consumo. Segundo ele, tudo começou ao observar o pai fumar diariamente.
“Via o meu pai fumar todas as manhãs. Com o tempo comecei a experimentar e hoje já não consigo afastar-me deste mundo”, confessou.
Já Arlete Jamba, de 52 anos, ex-fumadora, recorda que abandonar o vício foi um processo difícil.
“Foi muito complicado deixar de fumar. Não se abandona o tabaco de um dia para o outro. Felizmente consegui, embora tenha sido tarde. Hoje sou uma nova pessoa”, afirmou.
Questionada sobre os motivos que a levaram a abandonar o cigarro, Arlete explicou que uma grave doença respiratória a obrigou a tomar essa decisão.
“Por orientação médica fui aconselhada a deixar de fumar. Estive entre a vida e a morte e percebi que precisava mudar”, revelou.
Actualmente afastada do tabagismo, Arlete apela a uma maior consciencialização da população, defendendo uma reflexão profunda sobre os riscos associados ao consumo do cigarro.
“O melhor é deixar de fumar. Muitas pessoas desafiam os riscos para a própria saúde e acabam por aproximar-se da morte”, alertou.
Por sua vez, Angelino Teixeira, também fumador, admite que frequentemente questiona o seu envolvimento com o tabagismo.
“Todos os dias pergunto-me por que continuo a fumar. No próprio maço está escrito que fumar prejudica a saúde, mas o vício fala mais alto”, reconheceu.
Legislação e protecção dos não fumadores
Em Angola, o consumo de tabaco em locais públicos é regulado pelo Decreto n.º 43/09, que proíbe fumar em ambientes fechados e colectivos, como hospitais, escolas, transportes públicos e recintos desportivos. A violação da lei pode resultar em multas para os infractores e responsabilização dos proprietários dos estabelecimentos.
A medida visa também proteger os não fumadores dos efeitos do fumo passivo, que, segundo a OMS, provoca mais de um milhão de mortes por ano em todo o mundo.
A propósito, um dos entrevistados não fumadores afirma sentir-se prejudicado pela postura de muitos fumadores.
“Nós que não fumamos também sofremos. Inalamos o fumo e corremos riscos para a saúde. É uma pena que a lei nem sempre seja respeitada. O mais grave é que até em algumas igrejas há utilizadores de cigarros, incluindo líderes religiosos, que desrespeitam as normas”, lamentou.
Consequências para a saúde
O consumo de tabaco está directamente associado a diversos tipos de cancro, especialmente o cancro do pulmão, além de doenças respiratórias e cardiovasculares.
Especialistas alertam que o tabaco mata cerca de metade dos seus consumidores. Entre as principais doenças relacionadas ao consumo estão os acidentes vasculares cerebrais (AVC), os enfartes, a doença pulmonar obstrutiva crónica e vários tipos de cancro.
Apesar das evidências científicas e dos alertas constantes, muitos fumadores continuam a ignorar os riscos, mantendo um hábito que ameaça a própria vida e a saúde daqueles que os rodeiam.


